O festim de Daniel Buarque, em “Comendo Londres”
O livro do jornalista e Mestre em estudos do Brasil é um convite a repensar e provar a gastronomia da capital britânica sem temor e preconceitos. Com bom humor, pesquisa histórica e experimentação in loco, a leitura traz a proposta de experimentar com novos olhos — e paladar — os sabores dessa cozinha tão peculiar.
Daniel e sua obra “Comendo Londres”, lançada em um pub em São Paulo (foto: divulgação)
Daniel Buarque é jornalista, escritor e cozinheiro amador, um pernambucano curioso, viajante e morador do mundo, de onde extrai análises sobre história e cultura, grande parte delas relacionadas à alimentação. Sobre o assunto, ele já publicou: “Comendo a Grande Maçã - Uma viagem gastronômica por Nova York” e “Itália abaixo de zero”, uma biografia do gelato que percorre os fatos históricos, as texturas e os sabores desse ícone italiano tão admirado.
Depois de Nova Iorque e Itália, o que ele foi buscar em Londres?
Vivendo na capital inglesa para um Mestrado no King’s College a respeito da imagem internacional do Brasil, esbarrou com o questionamento a respeito da imagem da própria cidade — e sua comida. Londres adquiriu fama de oferecer uma gastronomia ruim, com esquisitices na alimentação cotidiana dos ingleses que vão desde a comida caseira até os cardápios, gerando um diz-que-diz, mundo afora, que resultou na pecha. Alguns exemplos fazem sentido: os haggis (que são um correspondente mais temperado à buchada nordestina, feitos de ovelha), o clássico black pudding (que não é pudim, mas uma linguiça de sangue), a steak and kidney pie — torta recheada com carne bovina e rim... só para citar alguns. Ervilhas empapadas, que até poderiam ser gostosas, fish and chips gordurentos embrulhados em jornal. O que se tornou folclórico em comentários sagazes, divertidos e maldosos, parte de uma verdade, mas Daniel se propôs a encontrar o porquê dessa tradição desgostosa apresentando um novo cenário que refaz a imagem e o sabor dessa cidade que é símbolo de multiculturalismo, de modernidade e tendências. Por que não levar esses atributos para a mesa?
As palitadas ferinas não são exclusividade do autor. No livro ele cita escritores, críticos e estudiosos que fazem parte da turma que já condenou a comida inglesa. A eles se juntam declarações famosas, como a do (ex) presidente Jacques Chirac a Vladimir Putin, em off, mas captada pelos presentes, sobre seus rivais ingleses, colocando o dedo direto na ferida: “Você não pode confiar em um povo que cozinha tão mal assim”.
Daniel mostra que comer em Londres, hoje, é mais vantajoso — e prazeroso — que ir a Paris atrás da gastronomia local... Será?
Uma obra que atualiza os sabores da gastronomia britânica (foto: divulgação)
Para endossar sua tese, há citações de chefs e celebridades que exaltam a diversidade de opções gastronômicas de qualidade na capital inglesa, entre eles estrangeiros de renome e os próprios franceses. Se os franceses estão dizendo... Joël Robuchon é citado, com uma sentença que resume todo esse conceito: “Estou convencido que Londres é, em termos de gastronomia, mais vivaz, inovativa e mais aberta do que Paris”. Daniel também traz à cena os chefs Nigella Lawson, Jamie Oliver, Gordon Ramsey como exemplos de londoners que ensinam o mundo a comer melhor.
A provocação é irresistível e nos leva a devorar com apetite as duzentas e poucas páginas, divididas em capítulos cujos títulos são tão espirituosos quanto a proposta da obra — “Feijão no café da manhã”, “Cerveja quente, viva!”, “O jantar da classe operária”, entre eles.Daniel vai narrando a história dos povos, explicando as origens de tradições alimentares que levaram ao dito mau gosto, relata suas próprias experiências em pubs e restaurantes londrinos e no interior do país e a convivência com outros moradores, locais e estrangeiros, no período em que viveu na cidade, que volta e meia o inquiriam se estava passando bem com a comida — como se o normal fosse sofrer com a oferta gastronômica de Londres. Ainda recheia essa torta cheirosa com dicas de endereços, convidando o leitor a experimentar uma Londres exuberante e vívida que nos encanta. Que o diga minha filha Julia, que se sente legítima londrina, tendo em vista a herança paterna e a identificação com o life style arrojado e autêntico. De minha parte, a cada ida, já quero programar uma volta em seguida, minha declaração de amor inconteste à Londres.

