Os banquetes dos jardins de Rita

Rita Taraborelli (foto Camila Fontenele)

Se a literatura tem o poder de nos transportar para lugares, emoções e cenários que nem sonhando enxergaríamos, acredito que a escrita de receitas também. Lendo, pode-se quase sentir os aromas de um prato, degustar seus sabores. Agora imagine um livro ilustrado, colorido, escrito e criado por uma chef que vive em um jardim, onde ela desenha, cozinha e inventa receitas originais com tudo o que tem ao seu redor: plantas, flores, frutos, sementes, crianças, ideias e um talento infinito.

Foi assim, com um livro nas mãos, que cheguei ao Jardim Comestível da Rita Taraborelli. Como quem passeia por alamedas perfumadas, fui conhecendo a arte e o ofício de Rita. Ela tem sete livros de culinária, todos lindamente ilustrados com suas criações em aquarela para as receitas que desenvolve utilizando grãos, sementes, folhas, flores, frutas, tubérculos, pancs (plantas alimentícias nãoconvencionais). Rita ainda muito jovem se descobriu vegetariana, e sobre essa cozinha, com talento e uma história de arte em família ela vem construindo toda a sua obra.

Focaccia e almôndegas com macarrão: desenhos de comer com os olhos

Assim como acredito que livros preciosos têm aroma e sabor, não tenho dúvidas de que a herança invisível de nossos antepassados mais cedo ou mais tarde surge como uma revelação. Raquel, a mãe de Rita, graduada engenheira de alimentos, foi uma admirada artista plástica impressionista que tinha como hobby cuidar das plantas e flores de seu jardim —inspiração e tema de sua arte. A filha tinha em casa, na cozinha da mãe, na pintura, nas plantas e flores, os modelos e ideais que alimentariam seu próprio caminho.

Assim ergueu o seu Jardim Comestível: o site-blog-perfil e o lugar onde ela reúne o acervo de suas produções. Livros de receitas, livros infantis ilustrados, em colaborações e autorais, ela tem uma série — verdadeiras preciosidades.

Formada em Gastronomia no Senac Águas de São Pedro, Rita fez carreira em importantes cozinhas da alta gastronomia paulistana. Também estudou Alimentação Viva, no centro Terrapia, da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e dedica-se, desde cedo e ininterruptamente, aos estudos de pintura. A enorme experiência que adquiriu criando e experimentando opções vegetarianas a levou ao conhecimento que exibe nos livros. As receitas são deliciosas e partem do seu dia a dia: a escrita, os desenhos, o jardim, o cuidado dos dois filhos pequenos.

PF da Rita: arroz, feijão, farofa de cuscuz (foto: Camila Fontenele)

Bolo de cenoura, farofa com banana e lascas de coco, focaccia de batata doce (essa vou fazer) decorada com folhas de primavera, a Bougainvillea, em suas lindíssimas cores, estrogonofe de cogumelos, um dos pratos queridos do filho mais velho, são algumas das criações que estão nos livros. Ilustrados de forma didática, com os ingredientes e modo de preparo, fotografados com esmero, são sensacionais.

Receita e as plantas do jardim: é tudo criação da chef artista (foto Camila Fontenele)

O livro mais recente, Nossa Cozinha Vegetariana, é um primor: com 100 receitas veganas para o dia a dia, dá para sentir o sabor de cada página. O capítulo Arroz, feijão e fava traz propostas saborosas e ricas — por exemplo, o arroz com pequi e castanha de caju, azedinho e crocante. Entre os feijões, a receita do feijão branco com alho-poró é tentadora. No livro, Rita separa os capítulos por temas, o que é muito útil: Café da manhã e pequenas refeições; Cogumelos na nossa cozinha; Molhos, pastas e outros preparos, por exemplo. Dá para se alimentar bem e ficar sentir o gostinho da felicidade com tanta variedade e criatividade!

O livro mais recente: 100 receitas (foto: Camila Fontenele)

Flora Comestível do Brasil, anterior ao Cozinha Vegetariana, é inovador: destaca as plantas brasileiras, com a participação do botânico Eric Kataoka e da educadora Mônica Passarinho, levando o leitor a conquistar intimidade com os biomas do Brasil. Imagine um nhoque de mandioca e bertalha com molho de tomate e leite de coco! Caso o leitor não conheça a bertalha, pode obter todas as informações no livro, que descreve a trepadeira nativa da Mata Atlântica e ainda fornece as formas de uso culinário. A formação e experiência com a cozinha da alta gastronomia permite que Rita crie receitas como essa, do nhoque, e indique as plantas da flora brasileira que melhor combinem com o prato — a bertalha, no caso, ela recomenda para preparações salgadas. O livro foi vencedor, Best in the World, na categoria “Food & Nature” do prêmio internacional Gourmand Awards.

E não é só esse livro de sua obra que é premiado. Paz, Amor e Granola, com 40 sugestões da chef para esse alimento gostoso e querido de todas as horas, conquistou o primeiro lugar como “Melhores do Mundo” na categoria “Breakfast”, do mesmo prêmio Gourmand Awards. Jardim Comestível – Cozinha mediterrânea à brasileira, de 2020, tem vários: ganhou o Prêmio Sorocaba de Literatura 2021 e foi indicado também ao Gourmand Awards, nas categorias Mediterrâneo, Ilustração e ainda na categoria Financiamento coletivo na América Latina — Rita realiza os projetos editoriais de forma independente. Nessa obra, em segunda edição, os pratos utilizam somente ingredientes in natura, explorados dentro do universo dos sabores mediterrâneos e brasileiros. lustrado com as lindas aquarelas da autora e fotografias de Camila Fontenele, traz pratos clássicos reinventados pela chef, como a moussaka, um chancliche de castanha-do-pará, tomates à provençal e mais receitas que têm as flores como o ingrediente principal, como um azeite aromatizado com calêndula e peperonata com pétalas da flor de cosmos.

Rita e o Jardim Comestível, em segunda edição, e a Flora Comestível do Brasil: premiados pelo mundo (fotos: divulgação)

Não disse que o passeio seria incrível?


@rita_taraborelli
@jardimcomestivel

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