Telma da Babilônia O cerrado: memórias, tradições e sabores na voz da cozinheira e autora premiada
Telma Lopes Machado recebeu o segundo lugar na categoria melhor livro de receitas de uma chef mulher, em 2025, na 31ª edição do Gourmand Awards — o Oscar da gastronomia. Sua obra, Telma da Babilônia: Receitas com Memória é um saboroso caderno de lembranças e receitas de uma Goiás rica em tradições e história. O Cerrado é seu território de nascença e onde está até hoje, à frente da Fazenda Babilônia. Telma administra a propriedade, tombada pelo Patrimônio Histórico, onde oferece aos visitantes uma experiência gastronômica chamada Café Sertanejo, que resgata a culinária da região. Igual ao que ela faz nas páginas do livro, ao narrar o cotidiano da infância com os pais, dos avós e bisavós, e da vida adulta com filhos e netos — cinco gerações nas terras da antiquíssima Região do Ouro, em Pirenópolis (GO).
O livro é como um caderno de memórias e receitas (foto: arquivo pessoal)
Eu busquei o livro curiosa com o que poderia haver além do que recebemos como conteúdo midiático sobre o Cerrado, costumes e tradições desse bioma brasileiro tão rico, senhor de uma cultura singular que desconhecemos em grande parte. De um jeito natural e prazeroso, fui percorrendo a leitura como quem está à mesa com uma pessoa agradável, interessante e divertida, envolvida por suas histórias. Assim, pude compor na mente as cenas descritas tão carinhosamente quanto fartas em detalhes do que é — e fora — a vida longe da cidade, da eletricidade, da água encanada, dos utensílios domésticos e mesmo dos ingredientes como os conhecemos. A verdadeira história rural dos séculos passados que deixa uma herança fantástica até os dias de hoje.
Nos capítulos das memórias, visitamos o dia a dia na propriedade, a rotina dos pais e os cinco filhos, Telma a segunda deles, os agregados e familiares em seus afazeres. Mulheres e crianças no campo para colher milho, buscar areia no rio para arear panelas; toalhas de algodão alvejado feitas das sacas de açúcar, colchões de crina (como nas fazendas no Rio Grande do Sul) deitados ao sol quando “escapava” o xixi. Passamos pelas datas especiais e os pratos comemorativos: o empadão dos Natais (que leva mais de nove itens), a pamonhada dos encontros familiares, o Pão Pereira das festas de casamento (tem a receita e a história desse pão ao final) e as verônicas da festa do Divino Espírito Santo. Essa então é um ponto alto da tradição local, um dos eventos culturais mais emblemáticos da cidade – acontece por maio ou junho, sempre cinquenta dias após a Páscoa, com duração de mais ou menos de doze dias. Uma aventura que ainda farei, ainda mais com tantos quitutes deliciosos!
Telma Pereira, que ainda quero conhecer pessoalmente (foto: arquivo pessoal)
Não conheço Telma, ainda nem nos falamos, mas me sinto próxima dela como se já estivéssemos na mesa tomando café, provando rosquinhas e broas, trocando receitas. A sua história lembra, em alguns momentos, a vida passada no Pampa, meu terroir, e suas particularidades — de antanho até nossos tempos. São lugares diferentes, costumes locais, mas práticas semelhantes, de brasileiros e brasileiras na imensidão do nosso território, usufruindo e extraindo sentido e propósito daquilo que é mais simples e natural em cada um de nós: viver a vida com dignidade e alegria. No Norte ou Sul, no Leste litorâneo ou Oeste adentro, somos como a Telma no solo fértil da Babilônia, ralando milho, a Carla pequena catando pinhões na Serra gelada, ou com pá na areia, cavando mariscos na praia.
No livro, Telma realiza esse propósito, que vai além de receitas e pratos: reúne histórias culturais e registros da tradição dos habitantes da região, mostrando que a gastronomia é patrimônio e memória viva. Tomei a liberdade de reproduzir uma das receitas, o Pão Pereira. Segundo Telma, a receita foi criada pela tia Ceição, a quarta filha de uma prole de 14 irmãos, quitandeira mais prendada da casa — Conceição Pereira, daí o nome do pãozinho. Telma conta que o Pão Pereira lembra uma esfirra fechada, com a massa macia e o recheio mais temperado. A receita ficou tão famosa que foi incorporada às tradições das quitandas de Pirenópolis.
A receita que escolhi: o pãozinho macio que se tornou tradição em Pirenópolis (foto: arquivo pessoal)
PÃO PEREIRA da Telma da Babilônia
Ingredientes
Para a massa:
1 kg de farinha de trigo
1 ovo 1 colher (sopa) de açúcar
1 colher (sopa) rasa de sal
1 xícara (chá) de óleo rasa (190 ml)
1 cebola ralada
2 copos de leite (360 ml)
½ colher (sopa) de fermento biológico
Para o recheio:
1 kg de carne moída
1 kg de batata cozida
1 cebola ralada
1 xícara (chá) de manteiga (160 g)
200 g de massa de tomate pimenta-bode e sal
Preparo
Da massa:
Numa gamela, coloque o óleo, o ovo, o açúcar, o sal, o fermento, o leite, e misture bem. Em seguida, coloque aos poucos a farinha de trigo e sove até obter uma massa homogênea, como você faria com a massa do pão. Deixe descansar.
Do recheio:
Numa bacia, coloque carne moída crua, a batata cozida espremida, a manteiga, a massa de tomate, a cebola ralada e os temperos, e misture bem.
Da montagem:
Abra a massa com um rolo; ela deve ser fina. Corte a massa com a carretilha em retângulos de 10 x 8 cm. Coloque uma colher de sopa do recheio e feche bem a massa para que o caldo não vaze. Bata um ovo com meia xícara de leite, um pouco de café e pincele essa mistura sobre os pãezinhos. Asse em forno a 180°C, primeiro embaixo, depois na parte superior para dourar por cerca de 20 minutos. Rende 100 unidades.

